domingo, 24 de abril de 2011

Uma pequena mulher pequena

 Fez-se pequena por todos os lados
 No tamanho, na alma, no jeito, nos traços

 Fez-se pequena na grandeza
 De toda sua inocência antiquada
 Antiga, ingênua, gasta... Roubada

 Foi pequena, fizeram-na assim
 Fabricaram antes cada dia um tanto
 Desse amargo que hoje lhe retém o pranto

 Resolveu não dar lado às suas mágoas
 Mesmo quando a dor ficava sem jeito...
 Era então o começo
 Dessa capa que hoje lhe envolve o peito

 Cozinhava para oito
 Lavava os pratos de oito
 Passava a roupa de oito
 Costurava as calças de oito
 Oito.

 Se ela ainda hoje não sabe o que é amar
 Aconteceu de ninguém a lembrar
 Como amar? Se não podia nem... Pensar

 Roubaram-lhe a essência!
 A pequena foi reduzida à burro de carga
 E hoje esses mesmos ladrões
 A culpam por ter sido desinteressada
 E DESARRUMADA.




 Hoje presto muita atenção em cada palavra rara que a pequena solta...
 Cada sorriso que eu arranco daquele rosto miúdo, me deixa um pouquinho em paz.
 Sei que jamais vou resgatar tantos anos perdidos, mas posso fazê-la o que ninguém a fez.
 A pequena... Importante para tanta gente, mas sem ninguém para lhe dizer...
 Eu digo.
 Comigo ela não será rebaixada ou elevada a nada do que realmente é.
 Comigo ela pura e simplesmente será avó, ou, antes de tudo, MULHER.


 Um homem machista anula todas as suas outras características.
 Um homem machista... Se anula.
 Uma mulher vítima de um homem machista
 Pode perder o brilho por convenções burras
 Ou desfazer-se do erro e brilhar ainda mais.

sábado, 16 de abril de 2011

Um cinema de mim

 Cabeça baixa
 Sono
 Amargura...
 Assusta.

 Olhar retraído
 Olhar destraído
 Sem apetite
 Repensando alguns palpites

 Meus palpites desacelerando...
 Me assusta.

 Sempre tão cheia de mim
 E no meu umbigo
 De repente ficar por fora

 Tão por fora assim
 De mim,
 Me assusta.

 Me ver abrindo o portão
 E entrando em casa assim
 Por cima,
 Me assusta.

 É como se eu fosse ao cinema todos os dias
 Para assistir uma réplica quase perfeita
 Um xerox de mim que faz exatamente o que eu faço,
 Mas que não sou eu, de fato.

 Como se eu estivesse em recesso,
 Intervalo, pausa para o lanche.
 Um período entre a brincadeira de viver
 E a vida.

 Melancolia.
 Vivendo agora para dar certo depois.

 E com muito medo
 De que dê errado.
 De que não saia como o planejado
 Tão planejado...

 Medo do tal "nunca chegar",
 Medo de me preparar para viver depois
 Para sempre.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Mente sã


 A minha não é.
 A sua não é.

 Não antes de dormir,
 Nem diante da certeza de que ninguém poderá lê-las.

 De perto, todos nós somos insanos.

 Todos
 nós 
 somos meio
 insanos

 Escondendo alguns pensamentos
 Por debaixo dos panos

 Guardando nossa insanidade particular
 Sob o tapete felpudo das nossas idéias
 Sem platéias...

 Aonde isso vai dar...

 Mente dã

 Mente
 Dã.


domingo, 3 de abril de 2011

Fonética frenética

 Pessoas nascem enquanto eu pisco os olhos.
 Pessoas morrem enquanto eu pisco os olhos.
 Mulheres escolhem vestidos de noiva.
 Homens fazem pedidos de casamento.
 Casais na hora do sim.
 Juízes na hora do "culpado"!
 Funerais, acidentes, beijo, tapa, briga, volta, riso
 Choro, cotuvelada, batida de dedinho no pé da cama
 Prensamento de dedão na porta do carro
 Bodas de ouro
 De prata, de bronze, latão
 Batida de carro na China
 No Afeganistão
 Na Rússia, Japão
 Flash em mais um flagra na orla de Copacabana
 Algum rico famoso mantendo a forma com sua água e sua bandana

 Bebês nascendo, gente morrendo
 Tudo aos trilhões pelo mundo a fora.

 E eu só pisquei os olhos...
 E eu aqui, só piscando os olhos.