Adoro o barulho do trem, escuto da minha casa.
Estou escutando agora.
Adoro o cheiro do chá... De erva cidreira
De camomila
De erva-mate.
Adoro o gosto de goiaba e de suco de maracujá.
Tomo sorvete de limão, sempre.
Adoro o cheiro da minha avó e da casa dela.
Adoro o jeito que ela coloca as mãos sobre o colo, tão pequenininha.
Reparo na cor do cabelo dos outros.
Reparo na cor do joelho dos outros.
Reparo no som que fazem quando estão comendo.
Reparo no que fazem com as mãos enquanto falam.
Reparo o sorriso, reparo o rosto.
Reparo na bochecha dos outros e se ficam vermelhas às vezes.
Reparo.
Encontro beleza aonde não tem, muito bem.
Vejo beleza na beirada dos esgotos. Se tem planta, tem vida.
Vejo beleza nas sarjetas e nos mendigos deitados. O coração deles ainda bate, apenas bolsos e estômagos encontram-se vazios.
Enxergo o cheiro da rua molhada, sinto o gosto do cheiro da fronha lavada.
Vejo a beleza do brilho no olhar que aquela senhora leva.
Não dou boa tarde, mas gostaria de me sentar ali do lado... E saber como ela veio parar aqui.
Parar ali... Naquele ponto de ônibus, sacola na mão, tão solitária...
Escuto o som da lombriga na barriga do menino, se contorcendo, quando vê um doce...
Toco o som que os passarinhos fazem na minha janela.
Beijo o som dos passarinhos na minha janela.
Sinto cheiro de café.
Forte.
Preto.
Café fraco para mim é chá.
Adoro chá.
Mas chá é chá.
Quando tomo café, quero tomar café.
Gosto de enxergar as cores, gosto de saber por que estão ali.
Não gosto de passar pela vida assim, sem por que.
Gosto de encontrar emoções nas razões.
Vejo vida aonde já morre.
Vejo porre em gente sã.
Vejo graça aonde não pode.
Vejo beleza, aonde não tem.
Quero vida, cor, textura, amor.
Quero cheiro, gosto, toque
Quero música, não ibope
Quero VERDADE
HUMILDADE
SIMPLICIDADE.
Quero verdade.
As coisas simples da vida.
A vida, em si.
Coisas acontecem o tempo inteiro, coisas acontecem sem fim.
Perdemos tanto, guardamos tão pouco...
Folhas caem no outono e enfeitam as calçadas.
Flores nascem na primavera e enfeitam os ipês.
Passamos de carro, tão rápido...
Vemos o que nos mostram. Não procuramos mais pela beleza.
Beleza em um gesto que, de tão sutil, passou despercebido...
Beleza em uma brisa que, de tão sutil, passou despercebida...
Beleza na sutileza. Beleza humilde, natural, pequena.
Poderia ter sido assim
Eu deveria ter dito isso
Não deveria ter feito aquilo
Amanhã eu mudo
Amanhã eu estudo
Amanhã eu te conto
Amanhã fico pronto
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Acabe com isso! Olhe para sua vida.
Que é só mais uma vida, mas continua sendo a sua.
Sua vida sentada na fila do SUS.
Sua vida sentada atrás de uma tela que pisca e fala.
Sua vida, impaciente, no semáforo.
Sua vida, tão perdendo a cor, parando.
Sua vida, tão linda, esperando.
Sua vida esperando para ser vista.
Vá até aonde o vento bate.
Que esse lugar tenha a grama bem verde!
Estenda uma esteira.
Bagunce o cabelo, tire os óculos, os sapatos, a camiseta.
Leve lembranças com você, leve você com você.
Escute. Faz barulho.
Sinta! Tem cheiro.
Toque, toque agora o seu sorriso.
Sinta agora sua felicidade.
Com tão pouco...
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